Tenho sempre vários emails de pessoas que se querem tornar vegana/os ou vegetariana/os mas acham que é complicado. Contam a sua história e pedem para eu contar a minha, de como me tornei vegetariana e as dificuldades que ultrapassei. E cá estou, a contar a minha história, porque aparentemente tem sido útil. Espero que se revejam nela e vos inspire.
Eu tornei-me vegetariana aos 12 anos numa cidade pequena onde conhecia um vegetariano (sim, UM!) e não havia Celeiro, Produtos Pura Vida, Área Viva nem outros que tal. Não havia nada do que há hoje.
E como é que isto começou? Não sei explicar, a verdade é que sempre adorei sopa e fruta, ao contrário das outras crianças, e nunca achei piada a carne ou peixe. Ou porque tinha espinhas, ou porque tinha olhos, ou porque tinha ossos, ou veias, ou sangue… e então mastigava tudo a custo, muito lentamente, e, que nem um esquilo, ia guardando tudo dentro das bochechas sem conseguir engolir. Nunca consegui olhar para um prato com carne, peixe ou marisco e pensar que aquilo era, simplesmente, comida. Para mim sempre foi um pedaço de animal. E os pedaços lá ficavam a fermentar dentro das minhas bochechas durante jantares inteiros. Podem achar surpreendente, mas houve muitas coisas que nunca comi (ou nunca consegui comer), como coelho, pato, leitão, cabrito, morcela, moelas, orelheira, sapateira, lagosta, ostras, entre muitas outras coisas. Uma vez comi uma colher de arroz de cabidela porque o meu pai me disse que era igual a Nestum de Chocolate. Mas não era. E eu nunca mais comi nem cabidela nem Nestum de Chocolate, na dúvida…
Um dia uma minha prima mais velha disse-me que se tinha tornado vegetariana. E foi a revelação. Pareceu-me muito bem. Quando anunciei a novidade aos meus pais pareceu-lhes muito mal. E foi uma grande complicação…
Obviamente os meus pais disseram para eu ter juízo e pensavam que era uma mania que iria passar, assim como me passou o luto pela morte do Kurt Cobain (eh eh eh! A sério, eu era a viúva dele, partiu-me o coração).  E tudo se manteve igual na nossa mesa. Mas eu não ia comer carne nem peixe, porque tinha percebido que isso era possível e que existiam pessoas vegetarianas, apesar de não se falar sobre isso e apesar de eu não saber sequer o que comia um vegetariano.
Nessa altura eu tinha um cão que se chamava Pintas. Era o meu companheiro e era, provavelmente, o cão mais guloso de todos os tempos. Para vocês perceberem, se lhe estivéssemos sempre a dar de comer ele comeria até rebentar, mais ou menos como os cavalos. E era um cão grande e forte, incrivelmente bonito, que pousava a sua cabeça enorme nos nossos joelhos enquanto nos decorava as calças com fios de baba. Era a solução para o meu problema. Durante as refeições, o Pintas punha a cabeça em cima do meu joelho e eu fazia deslizar suavamente os pedaços de carne ou peixe do meu prato até à boca dele. Era uma win-win situation. Nos restaurantes é que era complicado… ou comia omoletes, ovos estrelados e outras receitas com ovos, ou lá tinha que gramar o que toda a gente escolhia, cortar o peixe ou a carne aos pedaços, deitá-la para o guardanapo, abanar o guardanapo por baixo da mesa, voltar a pôr o guardanapo no colo e refazer o processo todo, até acabar. Não era fácil, mas eu aperfeiçoei bastante bem esta técnica com o tempo. E isto durou um ano. UM ANO! Passado um ano a minha mãe disse-me “Ok, já vi que não vai passar, vamos lá fazer isto a sério”.
E já tinha direito a arroz de feijão, massa com grão, arroz com grão e massa com feijão. E muita sopa e pão com manteiga. A minha mãe navegava na escuridão, mas acabou por criar pratos com vegetais e leguminosas que ainda hoje me fazem salivar só de pensar neles…
Um dia, de visita ao Porto, descobrimos leite de soja (provavelmente, a coisa mais horrível que já bebi na vida), latas de Granovita (a carne vegetal mais cara do mundo) e bifes de soja (proteína texturizada). Foram as primeiras coisas que apareceram, estávamos em 1995 ou 1996. Depois disso ainda provei tofu e nunca mais quis voltar a ver tofu à frente. Até aprender a cozinhá-lo.
Entretanto os anos foram passando e cada vez apareciam mais produtos vegetarianos saborosos.
Agora em qualquer supermercado é possível encontrar leite de soja, tofu, soja, seitan, salsichas vegetais, entre muitas outras coisas. Agora é muito fácil!
Entretanto, pelo caminho, tornei-me vegana. Creio que é o percurso natural de um vegetariano interessado e/ou informado. E, apesar de haver muitos produtos vegetarianos/veganos à venda, não havia nada que me dissesse como cozinhar. Os meus últimos anos vegetarianos foram passados em Paris, onde me alimentava, basicamente, de queijo. E agora que era vegana ia comer o quê? Tive que pôr a mão na massa. Foi então que criei o The Love Food. Para vos mostrar como, afinal, é tão simples.
É muito fácil ser-se vegana/o, o que não é fácil é ter que lidar com as pessoas que o não são e que, normalmente, não entendem, numa primeira fase. Mas isso vem com o tempo, e por vezes aqueles que eram os mais inflexíveis começam a olhar para o nosso prato com gula. E depois começam a ouvir o que dizemos. Porque, afinal, é mais fácil conquistar alguém pelo palato.
Há várias razões para alguém se tornar vegano: não querer comer animais (porque não há necessidade nenhuma, enfim!), a saúde (porque é definitivamente mais saudável), por razões espirituais, entre outras. Seja qual for a sua razão, não se demova porque o vizinho lhe vai perguntar “MAS ONDE É QUE VAIS BUSCAR A PROTEÍNA?” ou “MAS AGORA VAIS COMER O QUÊ?”, ou ainda “MAS VAIS FICAR COM DEFICIÊNCIAS NUTRICIONAIS!”, quando um vegano come os vários milhões de alimentos que existem para além da carne e do peixe, e o vizinho, preocupado com as nossas carências nutricionais, come bife com batatas fritas ao almoço e peixe com arroz ao jantar, durante quase 365 dias por ano. E depois devora Activia porque tem a barriga inchada e sensação de enfartamento.
Já sabem que encontram mais informações aqui: http://www.blogthelovefood.pt/p/torne-se-veganoa.html
E receitas pelo blog inteiro. E se precisarem de tirar alguma dúvida, escrevam-me para thelovefood@hotmail.com. Terei todo o prazer em esclarecer-vos!
PS – Nunca tomei suplementos de Vitamina B12, se era isso que estavam a pensar. Na verdade nunca tomei suplementos na vida porque nunca precisei.
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12 comments

  1. Obrigada por esta partilha 🙂 Eu nunca comi carne na vida. Desde bebé que comecei a rejeitar a carne (a minha mãe diz que começou logo com a sopa com carne que se dá às crianças). Deitava tudo fora e nunca fui capaz de comer. Felizmente a minha mãe nunca me obrigou e sempre tentou arranjar alternativas. Ia comendo ovos, bebia leite, por vezes peixe (mas raramente). A verdade é que hoje, com 24 anos nunca comi carne e tanto a minha irmã como a minha mãe acabaram por deixar de comer também.

  2. Adorei esta partilha, porque era isto que estava a precisar ouvir.Já há algum tempo que eu ando a pensar tornar-me vegetariana,mas em conversa há sempre alguém que diz que é complicado,que preciso de fazer constantemente análises,talvez por causa da falta da vitamina B12. E eu ando neste impasse, mas a reduzir sempre a carne.Mas pelo que acabei de ler, nāo é preciso andar de roda dos médicos para me tornar vegetarian a.

    1. Obrigada! É uma ideia completamente errada que se passa do vegetarianismo. Acredito piamente que as pessoas que não são vegetarianas andam muito mais à “roda dos médicos” do que os vegetarianos. É totalmente errado dizer que se tem de fazer constantemente análises, e todos os mitos à volta da Vitamina B12. Os não vegetarianos têm certamente muito mais carências nutricionais do que um vegetariano que coma correctamente. É muito fácil ser-se vegetariano. E é um mundo novo de sabores, de texturas e de comidas!

  3. Muito obrigada pela partilha! Um texto maravilhoso que descomplica e desmistifica algumas questões sobre veganismo. As carências dos não vegetarianos são sobretudo de origem mental, pois falam do que não conhecem e ignoram completamente o perigo para a saúde da ingestão de proteínas de origem animal. Parabéns pelo Blog, uma iniciativa fantástica que poderá ajudar quem dá os primeiros passos no veganismo.

  4. Eu “chorei” a rir, revi-me em muitas situações. Parabéns! O texto está muito bem escrito, é muito divertido, apesar de contar situações muito embaraçosas.

  5. Olá. Gostei de ler o texto. Também me revi em muitas partes do mesmo.

    No entanto, aproveito para referir que me parece melhor que os vegans avaliem por si próprios, em cada caso e com análises, as questões relacionadas com a vitamina B12. Não tenho a certeza se a carência prolongada da B12 conduz a aos problemas anunciados em muitos lugares (pela internet, pelos livros, pelos médicos, etc.). Provavelmente sim. Mas tenho a certeza que eu próprio fiquei com carência de B12 depois de alguns anos (cerca de 7), apesar de o valor não estar muito abaixo do limite inferior recomendado. O que é que eu fiz? Comecei a usar um suplemento vegan de B12 e em muito pouco tempo já tinha o valor normalizado.

    Por isso, apesar de muitos vegans talvez nunca precisarem de suplementar – óptimo! – alguns precisam (se querem manter os valores dentro dos parâmetros aconselháveis).

    Ricardo Miguel

  6. Olá Maria

    Eu fui uma dessas pessoas que a tua história inspirou. Ainda não te agradeci pelas tuas palavras e prontidão em ajudar-me, mas agradeço-te agora aqui. Não tem sido fácil lutar pelo que acredito, mas é sempre bom perceber que existem mais pessoas a lutar pelo mesmo e acima de tudo, é sempre muito bom descobrir blogues assim, que nos fazem acreditar que tudo vai correr bem 🙂

    Obrigada e tudo de bom

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